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Matéria Jornalística /


Publicada em: 16/06/2026 21:50
Memória viva: 59 anos sem o professor José Luiz de Mesquita, expoente da história afro-sul-mineira

Herma do professor José Luiz de Mesquita, ao lado da igreja do Rosário, templo que ele salvou tombando-o no Patrimônio Histórico Nacional

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História de Lavras - do acervo de Efemérides de Eduardo Cicarelli.

O dia 16 de junho marca uma data de profunda reflexão para a história de Lavras e, em especial, para a valorização da cultura e do protagonismo negro em Minas Gerais. Há exatos 59 anos, em 16 de junho de 1967, despedia-se deste mundo o professor José Luiz de Mesquita. Embora tenha partido em condições de pobreza e praticamente esquecido pelo poder público de sua época, o tempo se encarregou de consolidar seu nome como a maior expressão afrodescendente do Sul de Minas e uma das personalidades mais brilhantes e multifacetadas do Estado.

A trajetória do professor José Luiz de Mesquita confunde-se com a própria evolução social, cultural e educacional de Lavras. Sua principal e mais nobre missão foi a sala de aula: ao longo de mais de quatro décadas de dedicação incansável ao magistério, ele alfabetizou quase seis mil alunos adultos, abrindo as portas do conhecimento, da cidadania e do futuro para milhares de famílias em uma época de acesso restrito à educação.

Seu trabalho inclusive foi amplamente pesquisado pelo então ministro da educação do governo militar do presidente Arthur da Costa e Silva, Jarbas Passarinho, para a implantação do Movimento Brasileiro de Alfabetização (Mobral), implantado no país em 1970, mas criado em dezembro de 1967.

Mais do que um exímio educador, o professor José Luiz de Mesquita foi um homem de vanguarda, enxergando a necessidade de organizar a sociedade civil e dar voz às classes menos favorecidas. Seu espírito associativista e de liderança operária plantou as sementes do sindicalismo na região. Em 1909, ele fundou e presidiu a Sociedade Beneficente dos Operários Lavrenses (também conhecida como Sociedade Operária Lavrense), instituição que funcionou como o verdadeiro embrião para a futura organização dos sindicatos de trabalhadores locais. Anos mais tarde, em 1935, voltaria seus olhos à própria categoria ao fundar o Centro de Professores Lavrenses, uma associação pioneira voltada à expansão e aperfeiçoamento do ensino, além do amparo e defesa dos docentes - instituição que viria a ser a base do sindicato dos professores.

A comunicação foi outra trincheira importante em sua vida. O professor fundou e dirigiu o jornal "O Operário", um importante veículo de conscientização de classe. Sua pena afiada e inteligência jornalística também ecoaram em diversos periódicos locais, como "O Municipal", "O Município", "O Incentivo", "O Civilista", "Tribuna do Povo" e na "Revista Ilustrada Ei". O reconhecimento de seu talento rompeu as fronteiras municipais e nacionais: Mesquita colaborou para os jornais "O Repórter" e "Ação Social", de São João del-Rei; "O Bambuí"; o "28 de Setembro", de Pouso Alegre; "A Abelha" e "O Verbo", de Nepomuceno; chegando a escrever artigos publicados do outro lado do Atlântico, no periódico "O Operário", de Lisboa, em Portugal.

A influência de José Luiz de Mesquita estendeu-se de forma marcante pela cultura e religiosidade lavrense. Na música, ele eternizou seu nome como fundador da tradicional corporação musical Euterpe Operária, em 1910. No esporte e no lazer, ajudou a criar o Moreno Esporte Clube e o Crisântemo Clube. Homem de profunda fé, integrou ativamente a fundação da Sociedade de São Vicente de Paulo em Lavras e foi um dos fundadores da União dos Moços Católicos de Lavras, cujo objetivo era difundir os valores religiosos entre a juventude da cidade. Sua sensibilidade histórica e artística também salvou um dos maiores patrimônios locais: ele foi o grande responsável pelas articulações que culminaram no tombamento da histórica Igreja do Rosário pelo Patrimônio Histórico Brasileiro.

Dono de uma erudição ímpar e de uma oratória magnética, o professor era a escolha natural para representar o município em grandes momentos políticos. Em 1943, coube a ele a responsabilidade de discursar na recepção oficial ao embaixador Francisco Matarazzo Sobrinho, que visitava Lavras para assinar a ordem de serviço da construção da unidade da Metalúrgica Matarazzo. Relatos da época apontam que o embaixador ficou profundamente impressionado e rendeu elogios à eloquência e ao brilhantismo do professor negro que liderava aquele momento histórico.

Celebrar a memória de José Luiz de Mesquita, quase seis décadas após sua partida, é um ato de justiça histórica. Sua vida foi um testemunho de superação, dedicação ao próximo e genialidade, deixando um legado eterno que continua a inspirar a comunidade lavrense e a orgulhar a história negra em todo o país.

 
 


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