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Matéria Jornalística /


Publicada em: 30/05/2026 11:50 - Atualizada em: 30/05/2026 12:10
Do sapato da posse ao desfecho judicial da morte: como Lavras se conecta à história de JK

Juscelino Kubitschek (1902/1976) foi o 21º presidente do Brasil de 1956 a 1960

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Esqueça tudo o que você aprendeu nos livros de história da escola sobre a morte de Juscelino Kubitschek ter sido fruto de um mero acidente automobilístico. Um relatório histórico aprovado ontem, sexta-feira, dia 29, por seis votos a favor e uma abstenção pela Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP) concluiu que o ex-presidente foi, na verdade, assassinado pela ditadura militar em 1976. Nova investigação desmonta a farsa do acidente automobilístico de 1976 e expõe 37 fraudes cometidas pelo regime; caso possui conexões surpreendentes com a cidade de Lavras.

O documento aponta detalhadamente que a versão oficial do acidente na Via Dutra foi uma farsa meticulosamente montada para encobrir um atentado político. Com a aprovação do relatório, o próximo passo da comissão será trabalhar junto aos cartórios para retificar a certidão de óbito de JK, fazendo constar oficialmente que sua morte foi um assassinato decorrente da violência do Estado.

Segundo a relatora do caso, a professora Maria Cecília Adão, JK foi atraído para um hotel sob o pretexto de se encontrar com emissários do general Ernesto Geisel, então presidente do regime. Essa reunião fictícia foi a armadilha que o fez viajar de carro, e não de avião.

O relatório aponta uma série de evidências que sustentam a hipótese de assassinato e ocultação. No hotel, o veículo de JK pode ter sido alterado mecanicamente e seu motorista, Geraldo Ribeiro, pode ter sido sedado. Um caminhoneiro testemunhou ter visto o motorista de JK debruçado e desacordado ao volante momentos antes da colisão.

O próprio ex-presidente já havia confidenciado a jornalistas que estavam tentando matá-lo. Além disso, uma notícia de jornal publicada três dias antes do ocorrido previa bizarramente que JK sofreria um acidente fatal exatamente naquela rodovia.

A comissão identificou 37 fraudes na investigação da época, comprovando o esforço do regime militar para apagar os rastros do crime. Militares chegaram ao local apenas 20 minutos após a batida, assumindo o controle da área e alterando as posições originais dos veículos.

Fotos revelam que a lanterna traseira do Opala de JK estava intacta logo após a colisão, mas apareceu destruída quando o carro chegou ao pátio, a alegação era de que um ônibus da Viação Cometa havia batido na traseira do Opala, jogando-o para outra pista, onde colidiu com um caminhão. O veículo foi levado do pátio para o desmanche imediatamente, e foram destruídas as provas.

Os peritos do Instituto Médico-Legal (IML) do Rio de Janeiro que assinaram o caso já eram conhecidos por fraudar investigações de outras mortes da ditadura. Os laudos ignoraram testemunhas, apresentaram marcas de frenagem incompatíveis e alteraram o horário da morte de JK em três horas.

Não foi feito exame toxicológico nos corpos, o diário de JK sumiu do carro e a família do ex-presidente sofreu ameaças diretas.

O Elo com Lavras: duas trajetórias distintas ligadas ao Presidente

(Historia de Lavras - do acervo de Efemérides de Eduardo Cicarelli)

Em um fato curioso e digno de registro histórico, a cidade de Lavras foi o lar de dois personagens que, embora não se conhecessem, marcaram profundamente as duas pontas da história política de Juscelino Kubitschek: o começo de sua glória e o desfecho de sua morte.

O desembargador aposentado Gilson Vitral Vitorino teve um papel crucial no desfecho judicial da época. Foi ele quem concluiu que a causa da morte de JK havia sido um acidente (baseando-se nas provas que agora o relatório aponta terem sido forjadas pela ditadura) e determinou que o motorista da Viação Cometa, Josias Nunes de Oliveira - indiciado por homicídio culposo -, era inocente. Numa ironia do destino, o desembargador Gilson morava justamente na avenida Juscelino Kubitschek, em Lavras, onde faleceu em sua residência no dia 21 de agosto de 2022.

Se o desembargador lavrense esteve ligado ao fim da vida do político, outro morador da cidade esteve presente no momento mais importante da carreira do "presidente mais querido do Brasil". Sebastião José de Souza, conhecido carinhosamente como "Sebastian", foi o artesão responsável por confeccionar os sapatos que Juscelino usou em sua posse na Presidência da República.

A história de Sebastian, que morava no bairro Pitangui, foi resgatada e publicada originalmente pelo Jornal de Lavras em 4 de agosto de 2014 (clique aqui). O orgulhoso sapateiro de JK faleceu anos mais tarde, em 7 de fevereiro de 2021, em Belo Horizonte, durante uma visita a seu filho.

 

 
 


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